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Não
basta cuidar dos filhos
É PRECISO SABER EDUCÁ-LOS
Dr. Içami Tiba - psiquiatra
Quando o assunto é o relacionamento
entre pais e filhos, um rosário de problemas se descortina.
Prova dessa dificuldade é que, cada vez mais, mães
e pais procuram os consultórios de terapeutas para tentar
entender onde estão errando ou erraram. Esses mesmos consultórios
também são procurados por filhos que, um pouco mais
crescidos, buscam resolver seus problemas de inadequação
à sociedade. Essa realidade faz constatar que somente "cuidar"
dos filhos não é suficiente.
É preciso
saber educá-los. A todo momento convivemos com crianças
e adolescentes muito bem criados: fortes, saudáveis, bonitos,
mas não educados.
Para ajudar as famílias a refletirem sobre essa delicada
questão, o médico e psiquiatra Içami Tiba publicou,
no final de 2002, o livro "Quem ama, educa"(Editora Gente),
que desde o lançamento vem figurando como recordista de vendas
em todo o país. A partir da experiência profissional
de mais de 71 mil atendimentos psicoterápicos, durante 34
anos de clínica particular, o autor ensina aos pais como
possibilitar, desde o nascimento dos filhos, que estes sejam pessoas
responsáveis por sua felicidade e conscientes de sua responsabilidade
social. Leia, a seguir, a entrevista que ele concedeu ao JORNAL
DE OPINIÃO:
Como foi que chegamos
a essa geração de filhos tiranos, que tem sido tema
de tantas reflexões?
A geração dos nossos avós foi a geração
dos autoritários, ou a geração do poder. Os
pais dessa geração educavam de uma forma tal que bastava
eles lançarem um olhar sobre os filhos que estes os obedeciam
imediatamente. Quem não obedecia, apanhava. Mas essa geração
do poder acabou criando uma geração que trabalhou
muito, que comeu muita asa e pescoço e que foi subjugada
pelos pais.
Insatisfeita, essa geração de sufocados quis agir
de forma diferente com seus filhos.Eles deram para os filhos tudo
o que não tiveram, deram coxa e peito, em vez de asa e pescoço.
Mas depois foram meio tiranizados por esses filhos. Foi uma geração
sufocada, tanto de cima para baixo, pelos pais, quanto de baixo
para cima, pelos filhos. Esses filhos cresceram e formaram uma nova
geração, a dos folgados, que ficou sem referências
educativas. Foi uma geração que cresceu fazendo tudo
o que tinha vontade de fazer, sem ter que respeitar nada e sendo
provida em tudo o que queria. De certa maneira, esses filhos se
tornaram pessoas muito mais instintivas do que sociais.
Dessa geração de folgados, nasceram os tiranos. A
maioria das crianças hoje são tiranas, porque não
aprenderam a respeitar os seus pais. Mas isso porque eles próprios
são souberam impor limites, deixando os filhos fazerem tudo
o que tinham vontade. Esses pais, na verdade, sentem-se tão
culpados por uma série de coisas, principalmente por não
terem tempo para a relação com os filhos, que têm
dificuldade de falar "não". Eles se esquecem que
as crianças precisam desse limite para ter o contorno da
personalidade definido.
Como trabalhar a questão
do limite na relação pais e filhos?
Limite é coerência,
constância, conseqüência. Os pais precisam se educar
para serem educadores. Só o fato de serem pais não
dá a eles a condição de educar bem os filhos,
porque, na realidade, o filho precisa receber uma direção
e, se os pais não têm constância, se não
sabem o que fazer com os filhos, eles não passam nenhuma
segurança. Uma das primeiras coisas que os pais precisam
aprender sobre educação é que eles não
têm a obrigação e nem devem ser hipersolícitos
para com os filhos. Há coisas mínimas, mas muito importantes,
que ajudam os filhos a respeitarem limites. Quando os pais falam
não, a criança desobedece e fica tudo por isso mesmo,
o filho aprende a desrespeitar o não, interpretando-o como
sim.
Por que os pais
têm tanta dificuldade de manter o não, transformando-o,
com freqüência, em sim?
Geralmente os pais
transformam o não em sim porque acabam cedendo às
chantagens emocionais das crianças. Na realidade, quem quebra
o limite são sempre os próprios pais. Isso faz com
que o filho aprenda a não obedecer. E a criança precisa
do limite para saber até onde ela pode ir. Aliás,
qualquer ser humano precisa saber até onde pode ir. Quem
não sabe, fica se arriscando de um jeito que é muito
perigoso. Se a pessoa sabe que até determinado ponto ela
pode e que depois o risco aumenta, ela cria os seus próprios
contornos.
Quais são as
fases mais complicadas da infância?
As crianças
têm fases de mudança de comportamento. Um exemplo é
a fase dos dois anos, conhecida como fase do não. Mesmo querendo
uma coisa, a criança fala não nessa fase. E os pais
acreditam que ele realmente não quer e deixam a coisa livre.
Isso faz com que a criança, que, na verdade, queria dizer
sim, perca o referencial. Há outra fase em que a criança
começa a ter mais independência e quer fazer as coisas
sozinha, e os pais uma hora deixam, outra hora não deixam,
e ela também fica sem referencial.
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