LEITURA DOS PAIS

A liberdade e novos tempos
Dr. Içami Tiba - psiquiatra

A melhor disciplina é a regida pela liberdade. Contudo, muitos pais se perdem nela. Liberdade é poder material e psicológico, mas só tem valor quando associada à responsabilidade. A liberdade absoluta não existe. Ela é sempre relativa a algo.
O fato de uma pessoa estar sem atividade, sem fazer nada, não significa obrigatoriamente que essa pessoa seja livre. A liberdade individual é um conceito ou um estado de espírito que só se adquire após um autopreparo. Implica o reconhecimento dos seus próprios desejos e a capacidade de poder cumpri-los.
A liberdade está relacionada com a satisfação, de estar fazendo aquilo que tinha muita vontade de fazer. Para quem estuda, férias podem ser a liberdade do estudo. Para quem trabalha, um descanso. Para quem não estuda ou trabalha, férias não têm significado. E o fato de não estar estudando não torna ninguém livre.
Liberdade existe apenas antes de uma escolha. Uma vez feita a escolha, ela envolve responsabilidade e o conseqüente prazer em desfrutar essa escolha. Quem não conhece a liberdade individual, pode se complicar muito em um relacionamento, porque a liberdade relacional é muito mais complexa e exige maior sabedoria de convivência.

A criança não sabe o que é liberdade pessoal.
Simplesmente faz o que tem vontade de fazer.
Quem é mais livre: a cigarra que canta ou a formiga que trabalha? Nenhuma das duas. Tanto a cigarra quanto a formiga seguem seu determinismo genético. Cantar é a função da cigarra, como trabalhar é da formiga. Ambas não conhecem a liberdade pessoal. O fato de cantar confere à cigarra uma falsa impressão de liberdade, mas esta só existiria de fato se ela pudesse optar entre trabalhar e cantar e escolhesse a segunda alternativa.
No começo da vida, a criança é como esses insetos: instintiva.
Quanto mais próxima estiver do nascimento, maior o seu determinismo biológico.
Às vezes os pais chegam do trabalho cansados e cheios de preocupações, as mães estão sobrecarregadas com os serviços domésticos e encontram a criança no doce e sereno sono. Saudosos, invejam o filho: "Isso é que é liberdade!"Ledo engano. Esse conceito não se aplica à criança, uma vez que ela está apenas cumprindo o seu determinismo biológico de dormir para se desenvolver.

"Filho, eu sei que você quebrou o vaso sem querer e..."

Não precisava acrescentar mais nem uma palavra. Depois desse comentário inicial, nada do que ele dissesse faria o filho entender seu erro. Além de desculpar a atitude do menino, o pai tinha negado a emoção que o consumia, a raiva que o fizera quebrar o vaso com tanta força. E não confirmando a raiva do filho, dizendo que havia sido um mero acidente, o pai não só tirava a responsabilidade do filho; pior: agia como se soubesse o que se passava na cabeça do filho. A frase resumia o sistema educacional de toda família.
Aparentemente, aquele menino, filho único com dois adultos para satisfazer seus mínimos desejos, tinha a liberdade de fazer o que quisesse em casa. Mas, quem olhasse no fundo, sabia o quanto ele era impotente e infeliz.
Impotente porque tudo o que fazia não era reconhecido, não lhe conferia poder: "Foi um acidente!".
Infeliz porque ele não tinha pais companheiros com os quais pudesse partilhar emoções. Ele chorava num velório e seus pais cantavam parabéns. Sua liberdade pessoal estava morrendo, e seus pais comemoravam em clima de festa, apesar de estarem angustiados internamente.