
Por que
o adolescente é tão "espaçoso"
Rosely Sayão
" Por que é que os filhos adolescentes
são tão 'espaçosos'?", pergunta a mãe
de um casal de filhos de idades entre 12 e 15 anos. E ela garante
que os filhos se comportam hoje do jeito que ela tanto lamenta
por falta de educação e de limites. Ela conta que
os educou da melhor maneira que conseguiu e que eles sempre respeitaram
as regras que ela estipulou, tanto que sabem muito bem se comportar
fora de casa e são muito queridos pelas famílias
dos amigos.
Mas há uma coisa que ela não
consegue mudar: os filhos se apossaram da casa.
Quem tem filho sabe como, em geral, funciona isso. O quarto deles
é sagrado: ninguém pode mexer em nada, e muitos
chegam a trancá-lo com chave quando saem. Os cadernos,
os bilhetes, as anotações, os telefonemas, as revistas
que eles guardam, por exemplo, precisam ser totalmente respeitados.
Eles armam o maior berreiro e a maior briga quando percebem que
a privacidade deles foi violada. Em compensação,
eles não acham que os pais também têm o mesmo
direito, não é mesmo?
Entram e saem do quarto dos pais quando precisam e querem, só
largam o computador quando terminam de fazer o que querem, e o
mesmo vale para o telefone, que costumam ocupar durante um bom
tempo, por sinal. O controle remoto da televisão sempre
tem de ficar na mão deles e, quando escapa, é um
humor de causar arrepios.
Um outro pai quer saber por que os filhos, quando precisam de
algo dos pais, sempre exigem para ontem e não importa o
sacrifício que isso custe aos pais: levar para onde querem
ir e depois buscar, sem considerar se é hora de trabalho
dos pais ou se estes têm algo planejado para aquele horário,
por exemplo. Ou fazer a mãe sair de casa na correria para
levar ao colégio a camiseta da educação física
porque ele esqueceu e, sem ela, vai ficar com falta na aula.
Em compensação, eles não acham que os pais
merecem o mesmo tratamento, não é verdade? Quando
lhes é solicitado que façam algo, em geral respondem
"agora não posso, estou ocupado". Ou dizem que
mais tarde vão fazer, mas logo esquecem. E nem é
preciso ter filhos adolescentes para observar esse comportamento,
já que, desde pequenos, eles se comportam assim. Por que
será que isso ocorre, mesmo com o maior empenho da parte
dos pais?
Vale a pena considerar que o estilo de vida adotado no mundo atual
coloca os filhos em um lugar central na vida dos pais. A partir
de uma certa idade, o sonho de muitas pessoas -tanto homens como
mulheres- é ter um filho. Casar-se e manter a família
não tem a mesma importância que o filho tem. E, depois
do nascimento, toda a vida é centrada nele.
Trabalhar para ter condições de oferecer uma boa
educação -e isso, em geral, significa matricular
em uma boa escola- e para prover a vida dele, para permitir que
tenha o lazer necessário e estruturar o cotidiano a fim
de que o filho possa ser atendido em suas necessidades, dar uma
boa assistência médica etc. Enfim, o filho passa
a ter um lugar central na imaginação e no planejamento
de vida dos pais. Mas nem sempre isso resulta em conversas, companhia,
boa formação ou disponibilidade para educar e paciência
para aturar os conflitos que essa prática cria, por exemplo.
Nos dias atuais, faz bem aos pais pensar que não estão
sozinhos nesta vida, que têm os filhos como companhia. E
essa idéia cria quase uma dependência dos pais em
relação aos filhos.
Ora, é claro que os filhos percebem a importância
que têm para os pais e logo se dão conta de que isso
pode ser explorado: pedem algo uma primeira vez; se não
são atendidos, esperneiam, reclamam e conseguem -e pronto.
Em vez de pedir, eles passam a exigir que os pais girem em torno
deles. Eles se comportam como os donos do pedaço e -cá
entre nós- os pais sentem até um certo orgulho por
isso.
Talvez seja possível mudar um pouco o enfoque: o mais importante
para quem tem filhos é educá-los, e não servi-los.
ROSELY SAYÃO é psicóloga,
consultora em educação e autora de "Sexo é
Sexo" (ed. Companhia das Letras); e-mail: roselys@uol.com.br
Fonte:
Jornal Folha de S. Paulo, 10/04/2003 - Suplemento Equilíbrio.
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