
Contrariar faz parte do
processo de educar
Rosely Sayão
Uma mãe
aproveitou um encontro casual que teve comigo para fazer uma reclamação:
ela diz que gosta muito de refletir sobre a educação
que pratica com seus filhos, usando os assuntos propostos em nossas
conversas, mas que gostaria muito mais se eu desse uma amenizada
no papel e na responsabilidade dos pais.
"Por que somos só nós, os pais, que devemos
dizer ao filho que ele não pode isso ou aquilo de que ele
gosta ou que quer tanto ou que ele precisa fazer isso ou aquilo,
mesmo contrariado?" Essa pergunta expressa o mal-estar que
a tarefa de educar provoca e que é compartilhado por muitos
pais e professores.
Acontece que os educadores são porta-vozes de más
notícias para crianças e adolescentes, filhos e
alunos: que eles não são o centro do mundo, que
conviver com um grupo limita o modo de viver e de estar no mundo,
que não é possível fazer apenas aquilo de
que se gosta, que muitas vezes é preciso esperar para conseguir
o que se almeja ou sonha e também batalhar para isso, que
é preciso concentração e perseverança
para estudar, que a maioria das coisas se consegue com muito esforço
e dedicação, que escolher pressupõe perder,
que encarar frustrações é preciso etc. Os
pais e os professores são uma espécie de estraga-prazeres
na vida de seus filhos e alunos. Claro que o papel do educador
não é apenas esse, mas inclui essas tarefas, já
que o educador representa a cultura e a civilização
para as novas gerações.
Tem sido bem difícil arcar com essa parte, não é
verdade? Por quê? Talvez porque o adulto não esteja
tão convencido assim de que esse caminho é inevitável,
já que o modo de viver atual é uma busca incessante
de prazer e de bem-estar. Ora, se o adulto pensa assim, como atrapalhar
a vida dos filhos e alunos?
Acontece que pais e professores que evitam contrariar filhos e
alunos o quanto podem sempre terminam por esbarrar nas consequências
que, em geral, essa atitude provoca: torna-se mais e mais difícil
conviver com filhos e alunos, as birras e as transgressões
beiram o insuportável, e os deveres mínimos não
são cumpridos. É nesse momento que muitos pais ou
professores simplesmente desistem de sua tarefa: entregam tudo
ao deus-dará.
Para evitar esse impasse, muitas famílias têm-se
unido às escolas, constituindo o que eles chamam de parceria,
cujo objetivo é "falar a mesma língua"
com a criança. Na realidade, essa parceria com tal finalidade
é um instrumento -muitas vezes eficaz- para que os educadores
sustentem sua posição de estraga-prazeres com mais
firmeza.
O funcionamento é simples: "Já que temos de
dar as más notícias, vamos todos falar juntos; assim
ficamos mais fortes, e a criança e o adolescente não
têm saída". Pode ser eficaz, mas submete filhos
e alunos a um mesmo tipo de discurso e, portanto, eles ficam sem
escolha. Já deu para perceber que isso, sim, é que
é autoritário, não deu?
Os educadores precisam ter uma meta clara que justifique a ação
que tantas vezes provoca descontentamento e/ou desconforto da
parte de quem está sendo educado. Mas é justamente
isso que é difícil hoje: como sustentar a idéia
de que a vida em grupo, mesmo restringindo a vida pessoal, tem
seus benefícios em tempos de individualismo exacerbado
e dificuldade de convivência no espaço público?
Como garantir que, aprendendo a viver assim, o futuro poderá
ser melhor?
É nessa hora que o educador precisa ter a convicção
de que esse mundo pode mudar e melhorar e que cabe à nova
geração protagonizar pelo menos o início
dessa mudança. Uma amiga educadora chama isso de pedagogia
da esperança. Muito bem nomeado, já que quem educa
sempre tem esse anseio, mesmo que esquecido.
Voltando à reclamação da leitora: não
dá para subtrair do papel educativo de pais e professores
essa parte chata da interação com filhos e alunos.
Mas dá um novo colorido quando pensado desse modo, não
dá?
ROSELY SAYÃO
é psicóloga, consultora em educação
e autora de "Sexo é Sexo" (ed. Companhia das
Letras); e-mail: roselys@uol.com.br
Fonte:
Jornal Folha de S. Paulo, 03/04/2003 - Suplemento Equilíbrio.