
Quando
o bom senso é a melhor saída para os pais
Rosely Sayão
Muitas mães e pais que têm
filhos - principalmente filhas - entre dez e 12 anos estão
perdidos porque não sabem se tratam os filhos como crianças
ou como adolescentes. E não resolve nada enquadrá-los
naquela categoria chamada de "pré-adolescente"
-com a qual não concordo, já falamos disso-, porque
isso não ajuda em nada.
Motivos para essa confusão os pais têm de sobra:
a puberdade está ocorrendo mais cedo, e muitas garotas
menstruam pela primeira vez já aos dez anos, o que precipita
o início da adolescência. Mesmo as que ainda não
tiveram a menarca já se comportam como adolescentes porque
o comportamento social compactua, aprova e até pressiona
para que seja assim. Na verdade, até os pais entram nessa
mesmo sem perceber. O fato é que crianças de dez
ou 11 anos querem sair sem nenhum adulto responsável junto,
querem namorar, e muitas já "ficam" com pares
em festas noturnas embaladas com bebidas alcoólicas e listam
numericamente os beijos na boca conquistados ou roubados.
Pais e mães que acham inadequados programas desse tipo
têm a maior dificuldade em segurar o filho. É que
boa parte dos amigos agem assim, e aí vêm as dúvidas:
"Será que estou exigindo demais do meu filho? Será
que estou fora do tempo? Será que está na hora de
liberar?". Perguntas como essas tiram o sono de pais, por
isso vamos discutir o assunto.
Em primeiro lugar: mesmo tendo a mesma idade, frequentando a mesma
escola e série e manifestando interesses e comportamentos
semelhantes, garotas e garotos são bem diferentes. Algumas
meninas de 11 podem ser mais cuidadosas consigo mesmas do que
outras da mesma idade e podem reconhecer riscos em situações
em que outras se arriscam sem o menor receio, por exemplo. Alguns
meninos de 13 podem ser bem mais moleques do que outros de 12
e abrir mão com facilidade de suas convicções
e vontades só para se identificar com o grupo. Por isso
é bom observar bem o filho antes de tomar uma decisão,
tendo-o como referência. Mas atenção: não
vale levar em conta só o que ele diz. É preciso
considerar o que ele faz porque, nessa idade, nem sempre ele é
capaz de agir na hora do impulso ou do aperto conforme pensa.
Em segundo, é bom lembrar que os pais pensam muito diferente
uns dos outros sobre a educação dos filhos. Há
pais cuidadosos, que acompanham de perto o desenvolvimento da
adolescência do filho para se assegurarem de que ele assume
a autonomia com responsabilidade à medida que vai sendo
liberado da tutela dos pais, e há os que imaginam que o
filho passa da dependência à autonomia de uma hora
para a outra e confiam cegamente nas lições que
passaram. Por isso é bom conhecer os pais dos amigos com
quem o filho vai viajar, que vão recebê-lo para um
fim de semana ou para uma festa em casa, por exemplo. Assim, fica
mais fácil decidir se o filho deve ou não acompanhar
os amigos.
Finalmente, se os pais acreditam que o filho é muito novo
para realizar determinados programas ou para ter certos comportamentos,
enquanto não se convencerem do contrário, o melhor
será mesmo seguir as convicções que têm.
Claro que o filho vai berrar, sofrer, reclamar e emburrar com
toda a razão ao se defrontar com os limites familiares
impostos. Mas nada disso tem efeito fulminante sobre a criançada
e, como disse uma mãe zelosa, "enfrentar dificuldades
também ajuda a educar e a formar".
É: hoje ninguém tem condições de garantir
quando começa e quando termina a adolescência, e
isso é uma pedra no caminho da prática educativa
dos pais. Por isso o bom senso deve prevalecer: é bom ter
os olhos voltados para o mundo em que o filho vive e convive sem
perder de vista os princípios da família. Sem esse
equilíbrio, que é responsabilidade dos pais buscar,
o filho corre o risco de deixar de ter o vínculo de pertencimento
com a família sem ter ainda feito, com consciência,
o mesmo vínculo com outro grupo. E ele precisa sentir que
pertence a um grupo para ter referências de identificação,
para saber quem é.
ROSELY SAYÃO é psicóloga,
consultora em educação e autora de "Sexo é
Sexo" (ed. Companhia das Letras); e-mail: roselys@uol.com.br
Fonte:
Jornal Folha de S. Paulo, 24/04/2003 - Suplemento Equilíbrio.